terça-feira, 13 de julho de 2010

Imagine


por B. F. Teixeira

Imagine que eu tenha sido escolhido pela NASA para participar de uma missão tripulada ao planeta Marte. Imagine que essa missão consista na construção de um laboratório-base e na realização de alguns experimentos-base. Imagine que esse experimento, somados os tempos de ida e volta, leve cinco anos. Imagine que eu já tenha partido. Imagine, na verdade, que eu tenha partido em setembro de 2007. Imagine que eu esteja lá e que quem esteja escrevendo isso seja um blogueiro qualquer e não eu, astronauta famoso, ocupado em dar pequenos passos para homens, mas grandes passos para a humanidade.

Imagine que a viagem tenha sido cansativa, longa e monótona. Imagine que cada dia de trabalho é árduo, vermelho e tenha uma duração estranha. É claro, estranha para você porque eu já estou adaptado ao fuso horário local. Imagine que eu já esteja cansado de ver as mesmas caras e falar com as mesmas pessoas, mas eu não tenho muitas opções porque o contato via rádio com a terra é demorado, caro e reservado a comunicados de emergência e relatórios da missão, exceção seja feita aniversários, Natal e Ação de Graças (a missão é americana, os feriados são deles), qualquer comunicação diferente dessas resultaria em falta administrativa grave.

Imagine que eu seja um fanático por futebol. Imagine que eu nunca tenha escondido isso de ninguém, nem mesmo de meus companheiros de Agência. Se sua imaginação for algo fértil, você deve ter imaginado que eu encontrei algumas dificuldades no começo para discutir sobre esportes. Afinal, não sei nada de basquete, beisebol e vivo confundindo as palavras “soccer” e “football”, o que já me custou diversas frustrações, confusões, conversas e até amizades. A vida na terra do futebol da bola oval é difícil para os amantes do “jogo bonito”, mas há que se sobreviver pelo bem maior. Ah!, e você já deve ter imaginado também, que a NASA é composta por um bando de nerds de exatas e que lá dentro nem existem tantos espectadores de ESPN assim, principalmente quando se comparado com a audiência de The Big Bang Theory. Pois é, isso é verdade, e tornou ainda mais dolorosa e árdua minha convivência.

Deixe, contudo, sua imaginação navegar um pouco mais, e visualize só por um momento um nerd colecionador de cards de beisebol, engenheiro aeroespacial brilhante, fanático por modelos matemáticos aplicados a coisas estranhas (como lutas de sumô e audiência de talk shows), filho de mãe eslovena e sensível. Em um resumo da ópera, um xuxu de garoto. Esse é o meu melhor amigo Darin. Darin, que embora não fale português, para que eu pudesse fazer trocadilhos infames com seu nome, é uma boa pessoa, pois, permite que eu passe os feriados com sua família apesar dos olhares que lanço a sua irmã, dona de uma exótica beleza do leste europeu. Só para finalizar de visualizar Darin, imagine que ele também tem o hábito de trabalhar até mais tarde em seus projetos, ainda que quase nunca lhe seja paga hora extra. Pronto. Esse é Darin.

Agora, imagine que Darin está trabalhando até mais tarde na Agência em Houston, Texas. Imagine que quase todo mundo já foi embora, com exceção dos vigilantes e o tarado do laboratório R que fica usando a banda larga para baixar pornografia. Imagine que o dia em questão é o dia 12 de julho de 2010. Darin já não me vê há quase três anos. Mas, não é nisso que ele pensa. Pensa apenas em ver seus e-mails rapidamente e, finalmente, ir para a casa começar a desenvolver um novo modelo matemático para se aumentar as chances de completar coleções de cards de beisebol. Quando abre a internet, Darin dá de cara, não dá de cara, mas lê, uma pequena nota sobre o final (e a final) da Copa do Mundo. Então, a mente de Darin parte em linha mais reta do que a de um foguete projetado por ele. Copa do Mundo FIFA. Futebol (soccer). Bruno. Marte. 3 anos. Bruno não sabe o que aconteceu na Copa do Mundo. É a essa verdade, tão árida quanto o planeta vermelho em que me localizo, que sua mente chega. Por um momento, Darin (eu disse que ele é sensível) se põe no meu lugar e imagina o horror de não saber o que aconteceu na competição mais importante do seu esporte predileto. Depois imagina o terror de ver essa competição só de quatro em quatro anos, depois imagina o terror de que esse esporte tenha tão poucos pontos marcados por partida...

Darin controla sua imaginação fértil e decide fazer algo por seu amigo que não vê há tanto tempo. É claro, seu amigo faz aniversário em setembro, e comunicações de motivos diversos poderiam ser feitas nesse dia sem colocar seu emprego em risco. Mas, não! Darin decide criar coragem, colocar seu pescoço na reta e infringir as regras (Como consolo, Darin pensa que jamais demitiriam um engenheiro aeroespacial tão brilhante).

Fazendo uso do jeitinho brasileiro, aprendido com a convivência comigo, Darin entra no sistema de comunicações e envia a seguinte mensagem ao centro de comunicações do laboratório-base de Marte:

Espanha campeã Copa 2010.
Resultados:
Suíça: 0x1; Honduras: 2x0; Chile: 2x1; Portugal: 1x0; Paraguai: 1x0; Alemanha: 1x0; Holanda: 1x0 (pro).

David Villa: 5 gols

PS: Jogaram com uma bola nova. Você precisa ver o modelo matemático para as curvas dela! Uma loucura! Te mando no seu aniversário!!

Imagine agora minha reação ao receber a comunicação enviada por Darin. Primeiro, é claro, foi de surpresa pelo ato em si. Depois, é claro, de surpresa pelos números. Que me levaram a seguinte conclusão:

O efeito da derrota para a França na última copa do mundo (a última que eu assisti) foi forte demais para a Espanha. Aparentemente, a torcida e os dirigentes não aceitaram o fato de Zidane estar em um dia inspirado. Acharam que tudo estava errado com a Fúria. Afinal, jogavam como nunca e perdiam como sempre. Sempre. Era hora de mudar isso. De mudar tudo. Renovar. Acharam que era hora de a Fúria realmente se tornar furiosa. O título da Itália, então, única equipe capaz de frear Monsieur Zidane provava: ali estava a receita do sucesso. O talento não podia contra o comprometimento, contra a competitividade, contra a garra. Era hora de jogar como os italianos. Contrataram um técnico da velha bota (Fábio Cappello?) e imploraram para que os ensinasse o “catenaccio”. E assim o fez Cappello.

Jogando com cinco zagueiros, uma linha de quatro e um líbero, e dois volantes pesados, o time da Espanha truncou o jogo de seus adversários, dificultando qualquer exercício de criatividade por parte de seus adversários. Com o contra-ataque puxado por seu homem de velocidade no meio visando sempre David Villa, o time foi vencendo aos trancos e barrancos sempre com um gol de diferença. Exceção seja feita a frágil equipe hondurenha.

Mais um time que jogou feio e ganhou. Melhor ter ficado em Marte que ver isso acontecer com o futebol. Imagine que é com esse pensamento que eu apago a transmissão de Darin do sistema e que é com ele que eu retorno com prazer a meus pequenos passos.

Imagine, por fim, que o blogueiro qualquer tenha escrito tudo isso para provar o quão estranha foi mesmo essa Copa do Mundo. Mas, que estranho não quer necessariamente dizer ruim. Afinal, tudo poderia ter sido muito pior! Basta imaginar um pouco.

2010: Uma Copa Estranha


por B. F. Teixeira


Agora que a Copa acabou posso postar aqui sobre ela (encare isso como uma homenagem póstuma aos Três Corneteiros) sem o risco de “queimar a língua”, “pagar a boca” ou qualquer coisa do tipo, sem estar, em fim, sujeito a essas peças que o futebol adora pregar e que recebem o nome de um certo eqüino que habita o continente africano (o único ser, que parece não correr esses riscos é o sábio polvo Paul).

Pois bem, pensando sobre a copa, cheguei à conclusão simples de que não a entendi. Isso mesmo. Simplesmente não a entendi. A coisa não fez sentido, ao menos para mim. A começar pela campeã, Espanha, que conseguiu arrancar elogios e suspiros da crítica esportiva ganhando praticamente todos os jogos de um a zero. Mais assustador talvez seja o fato de a Espanha ter realmente jogado bonito embora tenha vencido praticamente todos os jogos de 1 a 0.
Depois, vem a nossa seleção que trocou a magia do futebol moleque pelo comprometimento tático. O brilho das individualidades dos craques pela força do grupo fechado. Trocou, enfim, o futebol arte pelo futebol arte da guerra.

Os franceses inventores da finesse, entraram de penetras, protagonizaram uma série de escândalos. Inventores do Estado moderno precisaram da invenção desse para cumprir tabela e, por fim, foram embora sem cumprimentar. Os ingleses, inventores do esporte e donos de uma torcida apaixonada, entraram em campo fleumáticos, mesmo sendo comandados por um técnico de sangue quente.

E, quem diria, o mundo ficou tocado com a dedicação e o amor dos americanos. Logo, eles que tanto desprezavam o esporte, desprezavam tanto que nem o chamaram de “pé-na-bola”. Os africanos decepcionaram. Justo na copa da África. Decepcionaram não apenas pelos resultados ruins, mas também pelo futebol apresentado. Trocaram sua ingênua irresponsabilidade pelo pragmatismo, sua malemolência pela força física. Tentaram, em suma, se europeizar. Sem sucesso, pois lhes faltou certa frieza e objetividade, características essas que poderiam ter levado Gana a uma semifinal histórica. Gana que, embora tenha se igualado em classificação a Camarões e Senegal, não conseguiu encantar o mundo como seus antecessores.

Os italianos abusaram de sua capacidade de reação, e a falta dessa os levou a um vexame. Os holandeses de belo toque de bola, dispostos a sacrificar a vitória por uma bela apresentação inverteram seus ideais e sacrificaram as belas apresentações pela vitória. Vitória esta que lhes faltou no sétimo jogo.

E, a Alemanha. O futebol frio, objetivo e duro dos germânicos não compareceu à África do Sul. A camisa tricampeã mundial foi representada por um grupo de garotos hábeis e velozes. Garotos que tocaram de primeira, trocaram de posições e até driblaram. Garotos que jogaram o futebol que todo o brasileiro, no fundo, desejava que o Brasil tivesse jogado.

É. Essa foi uma copa estranha. Uma copa na qual o único invicto foi a Nova Zelândia. Por isso, não me impressiona que o melhor palpiteiro tenha sido um polvo...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Natureza Sob Controle da Ciência Sem Controle


por Denis Barbosa Cacique

Num relato, assim se descrevem os efeitos do terremoto: “o mar se ergue fervilhando sobre o porto e destrói os navios ancorados. Turbilhões de chamas e de cinzas cobrem as ruas e as praças públicas, as casas desmoronam, os tetos tombam sobre as fundações e estas se desfazem. Trinta mil habitantes de todos os sexos e idades são esmagados sob as ruínas”. Noutro excerto, o evento recebe tratamento poético: “Ó infelizes mortais! / Ó deplorável terra! / Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra! / Exercício eterno que inúteis dores mantém! / (...) contemplai estas ruínas malfadas / Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas / Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados / Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados / Cem mil desafortunados que a terra devora / Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora / Enterrados com seus tetos terminam sem assistência / No horror dos tormentos sua lamentosa existência! / Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes, / Ao espetáculo medonhos de suas cinzas fumegantes (...)”.Mas, afinal, que relatos são esses?

Pelo estilo da escrita, tem-se a impressão de serem doutra época. Pelo conteúdo, entretanto, contemplam-se perfeitamente os escombros de Porto Príncipe, capital do Haiti. Eis a atmosfera lúgubre, as almas fugindo por entre as falhas nos destroços, a fome, a sede, a violência e, enfim, todo o caos que se segue aos abalos sísmicos na América Central. Curiosamente, no entanto, os textos acima foram escritos há mais de 250 anos, por Voltaire (1964-1778), escritor e filósofo iluminista. O primeiro excerto faz parte da comédia romântica “Cândido, ou o Otimismo”; o segundo, do “Poema sobre o desastre de Lisboa”. Ambos relatam, direta ou indiretamente, o terremoto que atingira Lisboa no ano de 1755, resultando na destruição quase completa da cidade. O sismo foi seguido de um tsunami que, segundo relatos, teria atingido alturas entre 20 e 30 metros. Também se seguiram múltiplos incêndios e houve milhares de mortos. Atualmente, geólogos estimam que o abalo atingira a magnitude 9 na escala Richter, um dos sismos mais mortíferos da história.

O terremoto de Lisboa também se fez sentir na ideologia da época. Sua ocorrência exata, no dia 1 de novembro, feriado do Dia de Todos-os-Santos, associada ao fato de diversas igrejas importantes terem ido a baixo, levantou muitas questões teológicas por toda a Europa. Muitos acreditavam que o fenômeno fora uma manifestação da ira divina. Por outro lado, o terremoto estimulou ainda mais o pensamento iluminista, cientificista e cético. No poema de Voltaire citado acima, criticam-se as interpretações religiosas do evento: “Direis vós, perante tal amontoado de vítimas: / ‘Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes’ / Que crime, que falta cometeram estes infantes / Sobre o seio materno esmagados e sangrantes? / Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios / Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias? / Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris (...)”. Defensor de uma interpretação científica do fenômeno, Kant publicou três textos distintos sobre o terremoto. Sua teoria, baseada em muitas hipóteses e nos pouquíssimos dados disponíveis na época, envolvia o deslocamento de enormes cavernas subterrâneas insufladas por gases a alta temperatura. Ainda que, mais tarde, tenha se mostrado falsa, sua teoria consistiu numa das primeiras tentativas sistematizadas de explicar sismos mediante causas naturais. Assim, observa-se, já naquela época, um grande esforço científico pela compreensão da natureza. Mas, afinal, para quê?

Segundo Freud, o sofrimento ameaça a humanidade a partir “de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução (...); do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens”. Nos dois primeiros casos e, talvez, inclusive no terceiro, pode-se passar, com o auxílio de técnicas orientadas pela ciência, “ao ataque à natureza”, sujeitando-a à vontade humana”. Daí Marcuse dizer que “o telos [finalidade] da ciência não é nada mais que a proteção e o melhoramento da existência humana”. Ora, em que se converteu esse ímpeto iluminista? Segundo Adorno e Horkheimer, é de se espantar que a humanidade, “em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, esteja se afundando em uma nova espécie de barbárie”. Evidentemente, o problema da ciência não é tão somente sua incapacidade de antever, evitar ou controlar terremotos. Na verdade, tal afirmação faz parte do livro “A Dialética do Esclarecimento”, publicado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando as luzes do iluminismo se converteram em sombras de aviões de guerra lançando bombas nucleares sobre o Japão.

O verdadeiro fracasso da razão se dá no combate à fome, à pobreza e à violência, bem como, por outro lado, na promoção da saúde, da igualdade, da liberdade, e da paz. Nesse sentido, de acordo com Franklin Leopoldo e Silva, “nunca se dispôs de tantos meios, e nunca eles estiveram tão distanciados dos fins a que deveriam servir”. Assim, há de se reconhecer que a pior ameaça à humanidade não decorre de terremotos, sacudindo o mundo a partir das profundezas da Terra, e sim da própria humanidade, destruindo a natureza e, por conseguinte, a si mesma, a partir do uso irresponsável da razão.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Epifania: 15 reais.

por B. F. Teixeira


“Está perdido?”.

Ela pergunta, se aproxima e segura em minha não direita. Em algum ponto da Avenida São João. Ela tem o corpo esguio e lindos cabelos cacheados ruivos. Pintados, como eu descobriria mais tarde.

Ela move seu polegar pela palma da minha mão. Pela minha linha da vida, do dinheiro e do amor. Seu polegar percorre todas essas linhas porque ela vai se envolver em todas essas coisas.

“Estou”. Respondo, sorrindo e sem soltar sua mão.

“Tu tens um sorriso bonito”. Ela diz com sotaque gaúcho e tom em algum lugar entre o maternal e o sedutor.

Mantenho minha mão na sua. Seu polegar continua passeando na palma da minha mão. Dinheiro, vida, amor.

Tento reservar-me. Fingir que o toque não me traz conforto. Fingir que é tudo business. Oferta e procura.

“E por quanto sai?”

“Para você, 30”.

“Só tenho 15. Preciso sacar. Onde tem um BB por aqui?”

“Fale baixo. Aqui está cheio de noia. Eles roubam até óculos de grau”.

“Se roubarem os meus, não poderei ver nem mesmo você.

Ela sorri de modo terno. Agora, tendendo mais para o maternal.

“Vamos no E-com. Lá ninguém sabe o que vamos fazer. Eu sei onde tem um”.

Ela assume a frente como um guia. Ou melhor, me arrasta pelo caos da grande e caótica metrópole como uma mãe arrasta a uma criança. Mãos dadas. Seu polegar percorrendo a palma da minha mão. Vida, dinheiro, amor.

“Que drogas você usa?” Ela me pergunta com a mesma naturalidade de quem pergunta “qual é a sua profissão?”

“Cerveja e remédios para dormir”.

“Isso não são drogas”. Ela despreza. Obviamente ela não conhece muito bem as benzodiazepinas.

“Eu fumo um beck de vez em quando”. Ela confessa. “Já fumou um beck?”

“Eu fiz faculdade.”

“Hmmm?”

“É uma espécie de pré-requisito para se formar”.

“Ah tá! Só isso só. Eu não me misturo com esses nóia não”. Diz ela se referindo aos consumidores de crack nos arredores da praça da república.

Continuamos a andar. Ela a frente. Eu atrás. Puxando-me pela mão, como uma mãe faz a uma criança pequena.

Chegamos ao e-com. Uma espécie de pequeno supermercado. Um pequeno supermercado para emergências. Pequeno é claro para os padrões paulistanos. Médio para os padrões da minha cidade. A máquina do banco 24 horas se encontra logo de frente a entrada para onde nós nos dirigimos, ou melhor, para a entrada a qual ela me guia.

Uma folha de papel sulfite colada na máquina frustra nossos planos:

“Caixa fora do Ar”

Ela se aproxima do segurança de postura tão impecável quanto seu terno e sua gravata e pergunta, usando agora seu tom sedutor:

“O sistema está fora do ar para todos os bancos?”.

Ele confirma.

Ela conversa com as pessoas. Ela escolhe os locais. Ela conhece os caminhos. Não há dúvidas sobre a natureza de nossa relação de poder maternal depravada.

“E onde nós podemos tirar dinheiro essa hora?”

“No e-com lá de cima? É muito longe.” A balança, agora, pende de vez para o lado sedutor.

“É o único jeito, senhora”

“Tudo bem. Obrigado”.

Ela volta a me arrastar. Agora pelo caminho de volta. Até a esquina onde eu estava perdido.

“Tive uma idéia”. Ela diz. A balança pendendo ao lado maternal. Você vai ao hotel onde você está, fecha a conta e paga no cartão 15 reais a mais. Ele volta esses 15 pra você em dinheiro e você me dá.

Concordo tacitamente. É uma boa idéia, afinal. Atravesso a rua e me dirijo ao meu hotel.

“Mas, você estava em frente ao seu hotel?”. Ela me pergunta, perplexa. Quase surtando, mas se controlando, como uma mãe liberal que encontra maconha na gaveta do quarto do filho.

“Você me perguntou se eu estava perdido. Mas, não especificou o sentido”.

Ela faz um som interessante, algo entre um hmmmm e um ahhhh e se resigna. Aparentemente satisfeita com minha esperteza ou conformada com minha estranheza .

Chegamos ao hotel. Faço a proposta ao recepcionista.

“Eu não tenho dinheiro aqui. Não tenho dinheiro no caixa de noite. Desculpe, ninguém acerta de noite”.

Olho para ela. No meu olhar a pergunta: “o que fazemos agora?” Ela entende e logo responde.

“Vamos fazer por esses 15 que você tem mesmo. Se não, vamos ter que andar muito.”

“Tá”.

“Você é de maior?” pergunta o recepcionista do hotel.

“Claro que sou”.

“Nome e RG”

Ela os passa. Entramos no elevador juntos.

“Com essa cara” _ ela diz _ “Não ser maior de idade como?”.

“Quantos anos você tem? Uns 22?”

“Obrigada. Tenho 24”.

“É que você tem um sorriso jovial”

“Obrigada. E você... você deve ter uns 27 anos”.

“Quase acertou. Tenho 26”.

“É que você tem cara de sério”.

O elevador para. Um daqueles elevadores velhos onde a porta automática é uma grade e você tem que abrir a porta principal. Um daqueles elevadores nos quais você não consegue depositar muita fé em sua vida. Ela desce.

“704. Deixa eu abrir”.

Abro a porta.

“Fique a vontade”, digo. E vou ao banheiro.

Quando volto, a TV está ligada no jornal da globo e ela está completamente nua. Seu corpo esguio e seus seios tipo taça de champagne atraem a mim e a meus olhares.

“Você disse para eu ficar a vontade, eu fiquei. Posso ir ao banheiro?”.

“Claro”.

Enquanto ela está no banheiro, abro os botões da minha camisa.

Ela sai.

Me abraça e me beija. Seu beijo tem sabor de cigarro mentolado. Não posso reclamar o meu deve ter gosto de cerveja. Mas, eu gosto. Gosto do sabor do cigarro mentolado. É forte. É como um cigarro misturado com um trident do mais forte. Enquanto ela me beija tira de vez minha camisa. Me coloca sentado na cama, se ajoelha a meus pés e abre o zíper da minha calça. Ela coloca meu pênis em sua boca com a habilidade que só uma profissional pode ter.

‘ * * * * *

“Eu gozei gostoso, fiquei até de perna bamba, mas você não...” Ela mente, provavelmente. Mas, como dizer a ela que eu senti prazer, mas não ejaculo. Não sou capaz de ejacular às vezes por causa da gigantesca carga de antidepressivos que tomo.

“Não foi culpa sua, eu digo”. Para evitar longas explicações.

“É a primeira vez que você paga uma garota?”.

“É. Antes disso, só namoradinha”.

“Então foi isso. Eu sabia que era alguma coisa psicológica. Ele queria sair, mas não saía”. Tem algo mesmo, porém não é psicológico é psiquiátrico.

“Você faz o que aqui em São Paulo?”

“Um curso.”

“Para o trabalho?”

“É”

“Vai embora quando?”

“Amanhã”

“Que horas?”

“A hora que eu quiser”

“Então vamos nos ver de novo amanhã. Eu te faço uma massagem. Uma massagem diferente. Que usa as mãos, os pés, os seios, e o clitóris. É tailandesa. A massagem dura uns 20 minutos, daí usamos os outros 40 para fazer outras coisas.” _ Ela diz, a balança agora, tendendo por completo para o lado sedutor _ “Eu vou te levar em um motelzinho, não tem frigobar como seu hotel, mas é bom, não tem nóia, não tem nada”

“Vamos então”.

“Que horas você está livre?”

“As cinco”

“Me passa o número do seu celular. Eu to sem. Me roubaram o meu. Um Nokia simplezinho que só tinha rádio acredita?”

Eu escrevo um numero num pedaço de uma folha, rasgo e lhe dou.

“Vou mandar a mensagem do celular de uma amiga por volta do meio dia. Vou assinar como Cris Gaúcha. Onde nós encontramos?”

“Ali. Na esquina. Na esquina onde você me salvou”.

“Ok”.

Ela se veste com uma velocidade impressionante. Eu ainda estou nu. Frágil como uma criança diante da mãe.

“Amanhã, hein? Eu te mando mensagem. Por volta do meio dia. Cris Gaúcha”.

Ela me da um beijo de despedida, sabor cigarro mentolado, e sai.

Me deixando lá. Nú, sozinho e frágil, mas confortado e esperançoso.

· * * * *

Acordo cedo para ir ao treinamento. Passo a manhã toda de olho no celular. Esperando a mensagem. Esperando uma sms de um telefone qualquer com a assinatura de Cris Gaúcha.

Meio-dia a sms não vem. Uma da tarde o sms não vem. Checo o celular, primeiro, de hora em hora. Depois de minuto em minuto. Duas da tarde e o sms não vem. Três, quatro, cinco, nada. Saio do curso e vou em direção ao hotel. Preciso pegar minhas malas de qualquer forma. Subo no meu quarto no elevador antigo. Pego minhas malas, desço. Sempre olhando para o outro lado da esquina. Para a esquina onde ela me salvou. Mas, não vejo nada. Não vejo ninguém parada. Ninguém de corpo esguio e belos cabelos ruivos cacheados.

Talvez, ela esteja atrasada. Saio do hotel e espero. Ela não mandou mensagem mais ainda há um pouco de esperança em mim. Espero por 15 minutos na porta do hotel. De qualquer forma, não quero pegar o metrô agora, na hora do Rush, não quero ser esmagado. Entro em um boteco ao lado do hotel e peço uma Skol. Escolho uma posição de onde posso ver a esquina. E vou tomando. Vou tomando. Uma, duas, três, quatro. A hora do rush passa. E ela não aparece.

Saio do bar, decepcionado, mas nem tanto. Me recordo com um estranho carinho de seu sorriso jovial e de seu jeito maternal. O conforto do seu polegar passeando pela palma da minha mão: Vida, Dinheiro, Amor. Essa mulher fez mais por mim. Mais do que o melhor boquete da minha vida. Carinho. É isso: carinho. Essa mulher fez com que eu tomasse consciência do carinho que sentia por ela. E, se sou capaz de sentir carinho por uma prostituta, o que dizer então do que eu sinto pelas pessoas que convivem comigo? Amigos? Colegas? De alguma forma essa puta de rua, essa mulher, foi capaz de fazer o que meses de tratamento com venlaflaxina não foram: fizeram a vida parecer melhor de ser vivida.

Com fé renovada na humanidade, na vida e em mim mesmo, mato meu copo de cerveja, pego minha mala e deixo o bar rumo à estação de metrô da República. Rumo à minha casa.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fazendo do blog um blog ou Momento desabafo (volume II)



Por B. F. Teixeira

Sim, eu estou bravo com você. Estou tão bravo com você que nem mesmo o dobro da dose receitada de alprazolam , 4mg, mais duas latinhas de cerveja foram capazes de me acalmar. Escrevo este na esperança de que ao menos, este, o seja. Estou bravo assim porque me revelei, me expus e você se omitiu. Se omitiu a ponto de me negar uma resposta simples: sim ou não. Você foi covarde. Você foi covarde ao extremo. Antes tivesse me dado o não, porém, você não poderia tê-lo feito porque essa não é a resposta que está em seu coração. Eu sei disso. Você sabe disso. Nós sabemos disso. Então, por que omitir, por que adiar, por que camuflar, por que fugir do “sim?”

Você fugiu do sim enquanto eu lhe oferecia de todas as formas uma chance de viver a vida. E você... você.... preferiu “isso”. Você preferiu o marasmo do conhecido, da solidão. Sim, eu estou bravo com você. Não, isso não vai passar tão cedo. E, sim, as drogas já fizeram efeito a essa hora.

Sim, eu acho que você cometeu uma grande besteira. Porque no mundo de hoje, nós não convivemos mais com as pessoas. Nós simplesmente esbarramos nelas, passamos por elas, como carros em uma avenida, que de vez em quando, param lado a lado, por alguns momentos, em um sinal fechado, como na música de Paulinho da Viola. Depois disso, depois que o sinal se abre, depois que o verde aparece, todos se misturam, se perdem no meio das intricadas avenidas cheias de desvios e acessos da vida. É isso que vai acontecer conosco. Mais rápido do que você imagina o sinal vai se abrir e vamos nos misturar aos outros, virar em esquinas diferentes e nos perder para sempre. Seremos apenas memórias distantes um para o outro. Um potencial não realizado. Um eterno “e se”. Tudo porque você não quer que eu a siga. Tudo porque você está adiando o sim por tempo demais. Adiando o sim até que o sinal se abra.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Bi-Campeão!



por Denis Barbosa Cacique

Se o Brasileirão 2009 foi o mais emocionante dos últimos anos, o mesmo se pode dizer do Bolão Marcação Cerrada 2009, com a diferença de que este é organizado faz apenas dois anos.

Em ambos os casos, parte da emoção se deve a Palmeiras e a Valdez, os cavalos paraguaios de cada uma das competições. Confesso que, ainda no meio dos dois campeonatos, dei por decidido o campeão, mas, felizmente, estava errado. A partir da chegada do Murici no Verdão, o time foi perdendo o gosto pelas vitórias, a cabeça, o título, e até mesmo a vaga na Libertadores da América. Sabe-se lá o porquê, algo semelhante ocorreu com Valdez. Depois de ter feito um primeiro turno quase perfeito no Marcação Cerrada, ele foi perdendo fôlego, e acabou a competição em terceiro lugar. Não é uma má posição, mas todos sabem que ele prometia bem mais do que isso.

Apesar das diversas semelhanças, é preciso esclarecer que tais competições possuem importantes diferenças. Se, por um lado, o Brasileirão foi marcado por erros graves de arbitragem e interferências tendenciosas do STJD, por outro, não há qualquer mácula sobre o Marcação Cerrada. Numa época em que a popularização da internet torna cada vez mais difícil encontrar um blog de qualidade, o Marcação Cerrada, bem como sua página irmã Bolão Marcação Cerrada, são exemplos de seriedade. Criados por Vinícius Grissi, esses blogs são exemplos de que páginas independentes podem, sim, apresentar conteúdo, atualizações regulares, textos bem escritos, organização e confiabilidade. No caso do Bolão Marcação Cerrada, essas qualidades se ressaltam ainda mais.


Grissi conduzir a competição até o final com muita responsabilidade, transparência, respeito aos competidores, regularidade na postagem dos resultados e iniciativa e inteligência. Por tudo isso, gostaria de agradecer ao Vinícius toda a diversão que ele possibilitou aos competidores do bolão durante grande parte de 2009.

Enfim, antes que eu me esqueça: sim, eu levei o caneco novamente!

No ano que vem tem mais.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Salve o Peru do Natal



por Denis Barbosa Cacique

Alguma vez lhe ocorreu a idéia de que pode haver algo de errado na pretensa legitimidade do uso que nós, animais humanos, fazemos dos animais não-humanos quando nos servimos deles para a alimentação? Essa sensação pode ser provocada por notícias semelhantes à seguinte: ‘recentemente, a polícia desmontou um abatedouro de cães, em Suzano, cidade da região metropolitana de São Paulo. O estabelecimento clandestino funcionava nos fundos de uma casa, para onde eram levados cachorros de rua. Lá, uma vez engordados, eram mortos. A carne era vendida principalmente para açougues coreanos. Já os pedaços sem proveito, incineravam. E assim, à surdina, o abatedouro funcionou durante três anos’. Imagine quanto maniqueísmo foi necessário para que se pusesse em marcha tão repugnante indústria. Mas, além disso, não se furte de imaginar uma solução para o seguinte problema: será que os clientes do abatedouro de cães são moralmente piores do que nós, que já temos planejado o peru de Natal?

Em parte, essa é uma questão cultural. E quem de nós escolheu onde ou quando nasceria? Aleatoriamente surgidos num ponto do tempo e do espaço - assim eu suponho – nascemos, e pronto. Encontramo-nos, então, numa sociedade cujos elementos culturais já estavam sedimentados o bastante para que fiássemos neles sem sequer hesitar. Quase nunca questionamos nossas próprias tradições, mas sempre julgamos os elementos culturais estrangeiros. É complicado explicar os porquês desse comportamento. Na verdade, o ser humano tem a razão, essa perigosa fera no interior de cada um de nós, domesticada pelo hábito. Ele nos afrouxa o espírito crítico a tal ponto de considerarmos qualquer coisa aceitável: a razão afrouxada é capaz de tudo. Mas como se dá esse afrouxamento? Perceba: muitas de nossas verdades jamais passaram pelo crivo da razão. É normal e, em certos casos, positivo que hajamos assim. Damos crédito às coisas que nossos pais nos ensinaram. Eles assim também o fizeram. Do mesmo modo será com nossos filhos. E assim as tradições se perpetuam, de geração a geração, indefinidamente. Trata-se de um importante modo de compartilhamento de informações, o qual utilizamos o tempo todo, até sem perceber. Quando um médico nos prescreve uma medicação, por exemplo, não lhe exigimos uma demonstração minuciosa dos riscos e benefícios dos comprimidos. Nós simplesmente acreditamos no que ele nos diz. Em parte, é assim que se dá a perpetuação dos valores culturais, todavia numa escala muito maior e mais complexa.

Feita essa sinuosa, porém necessária, digressão, deve ficar mais claro o estranhamento que se sente diante dum cardápio estrangeiro. Por razões diversas, e que não vem ao caso elencar, cada sociedade engendra ao longo do tempo valores acerca de tudo, inclusive sobre os hábitos alimentares. Surgem, então, certas éticas alimentares, isto é, conjuntos de regras quanto ao certo e ao errado em torno do ato de comer. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, por exemplo, se comem perus, sobretudo no Natal. Já em algumas sociedades asiáticas, a carne de cachorro é um prato bastante comum. Nos dois casos, o hábito alimentar e seu respectivo valor moral local são culturalmente determinados. E justamente por se tratar de um hábito, pouco se questiona a seu respeito, a não ser que ele seja alheio.

Mas o que, afinal, é pior, alimentar-se de cães ou de perus? Por hipótese, assumamos que ambas as práticas são moralmente condenáveis. Há muitas pessoas convictas sobre isso e nós devemos ao menos refletir a respeito. Segundo elas, assumindo que o consumo de carne é dispensável aos seres humanos, o que, na verdade, é tema bastante controverso, então é moralmente necessário adotarmos dietas vegetarianas. Ao fazê-lo, evitaríamos os incontáveis sofrimentos infligidos a animais das mais diversas espécies, de cães a perus, tudo em nome do nosso simples paladar. Mas se essa mera idéia lhe soa demasiadamente estranha e, quiçá, risível, vale lembrar que o racismo, o sexismo e a homofobia, por exemplo, produziram, até pouquíssimo tempo atrás, teorias e práticas amplamente legitimados por cientistas, filósofos e religiosos, que, na verdade, apenas reproduziam valores culturais vigentes em suas épocas. E já que outrora fomos capazes de tão graves equívocos, o que nos garante que estamos certos quanto ao especicismo? Por via das dúvidas, portanto, talvez não seja uma má idéia salvar o peru do Natal. Pense nisso.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fazendo do blog um blog ou Momento desabafo

por B. F. Teixeira

Sento no chão frio só de cuecas. Minha cabeça roda em uma velocidade agradável. Não sei mais o que é álcool, o que é clonazepam. Nem quero saber. Penso nela. Preciso preparar uma surpresa. Preciso preparar alguma forma de surpresa. Alguma forma de conquista. Ela é mais profunda do que parece. Esconde uma tristeza, uma melancolia por baixo de um sorriso. Somos muito parecidos. O meu biombo é blasé, o dela feliz. Mas, eu consigo ver através de seu biombo. Lá, nos conectamos. Na solidão. Isso é o que mais me atrai nela... ela é como eu.

Porém, uma vez juntos, sendo aquilo que nos conecta a solidão, não estaríamos, então, imediatamente separados? Poderemos nos salvar ou eu vou levá-la abaixo em minha espiral de químicos? De qualquer forma, eu preciso tentar. Tentar de forma intensa. Foda-se o biombo blasé. Com ela, serei, ao menos uma vez, ao menos ao tentar, o homem intenso que ama com cada fibra do ser, que acredita no amor romântico sem tomar nenhuma precaução. Com ela serei o menino que chora vendo E.T ou Wall-E. E se nada disso der certo, posso sempre voltar ao Blasé. Ao álcool. Ao clonazepam.

domingo, 8 de novembro de 2009

Entre o saci e as bruxas



Por B. F. Teixeira"

"A bruxa vem aí/E não vem sozinha/Vem na base do Saci”. A clássica marchinha mostra essas duas criaturas mágicas do folclore em convivência harmoniosa. Nos últimos anos, porém, esses dois seres mágicos são os protagonistas de uma verdadeira guerra cultural. Tudo por causa de uma data. Dia 31 de outubro.

De um lado dessa batalha, o Halloween. Como o próprio nome deixa claro, não tem origem em nossa cultura. O dia das bruxas. Uma festa dos países de cultura anglo-saxã (Irlanda, Canadá, EUA) que é cada vez mais comemorada em nosso país.

Do outro lado o “Dia do Saci”. Símbolo da resistência cultural nacional. Nacionalistas culturais, (Sociedade de caçadores/observadores de SACIs) que já contam até com o apoio de um senador, Aldo Rebelo (PC do B/SP), querem expulsar as bruxas americanas e dedicar o dia todo à lenda nacional.

Nessa luta, como em todas as outras, a resistência é o lado mais fraco. Alguns dos fatores para essa diferença de poder são, obviamente, o poderio econômico americano e sua indústria cultural que por meio de Hollywood exporta seus costumes e sua cultura para todos os lugares do mundo. Inclusive o Halloween, inclusive para o Brasil. Contudo, muitos esquecem é que esse não é o único fator. A diferença de poder entre o saci e as bruxas reside também na forma com a qual cada um dos povos se relaciona com o seu folclore.

Para os anglo-saxões seu folclore é como um imenso baú de recursos de onde autores podem retirar elementos para suas histórias e altera-los a sua vontade. É isso que aconteceu com o mundo mágico dos bruxos de Harry Potter ou com os Vampiros de Crepúsculo ou de Anne Rice. As lendas anglo-saxãs estão em um constante reaproveitamento e reciclagem e, portanto, sempre atualizadas e nas mentes das pessoas.

Enquanto para nós as lendas já são histórias contadas. Terminadas. Fiéis a suas raízes, mas estagnadas. Nossas lendas continuam ligadas a um Brasil rural, enquanto agora a maioria de nossa população é urbana. Fazer trança em crina de cavalo é uma travessura que não se encaixa no Brasil de hoje. O saci precisa de novas travessuras.

Não me entendam mal, nessa luta, estou do lado da resistência cultural, só acho que a estratégia de batalha é errada. As lendas não vivem de festas, políticas culturais ou de projeto de lei, mas sim de histórias.

sábado, 31 de outubro de 2009

Síndrome de Wendy

por B. F. Teixeira

Ele goza. Eu não.

Ele sai de cima de mim. Vira-se de barriga pra cima. Coloca o antebraço em cima da testa. Emite um suspiro bobo de prazer.

Eu baixo os braços rente ao corpo e olho para o relógio: 11h30. Tudo – se é que posso chamar de tudo – entre nós começou às 11h15. Dou uma longa inspirada de tédio. Não devia, mas resolvo perguntar:

“Quantos anos você tem?”

16”.

Eu jamais devia fazer uma pergunta cuja resposta eu não queira ouvir. No fundo da minha mente, um ruído: eu atingindo o fundo do poço.

Ele me olha e sorri com o olhar de realização de quem acabou de passar de fase em um jogo de Playstation. E eu, eu sou o bônus.

“Você quer outra? Quer dizer, vocês podem... aquela coisa de orgasmos múltiplos e tal...”

Pelo menos é prestativo.

“Não”.

"Tem certeza?”.

“Sim. Estou indo já”.

Levanto. Começo a me vestir.

“A gente se vê por aí”

“É... a gente se vê...”

Abro a porta. Súbito estou envolta novamente pela festa. Adolescentes bebendo e dançando por todo o lugar. Preciso achar a minha adolescente. Dou um giro em busca de minha sobrinha. Não encontro. Encontro apenas um pequeno grupo de garotas bêbadas ao redor de uma batida de frutas.

“Do que é essa batida?”

“Pêssego”

“Que seja”

Tomo a batida no gargalo da garrafa Pet. As meninas já tomaram quase tudo mesmo. Enquanto o líquido doce desce, desejo que a vodka estivesse pura, para que queimasse minha garganta. Afinal, já atingi o fundo do poço mesmo...

Saio da casa. Lá fora, encostada em meu carro está minha sobrinha. Pergunto-me o que aconteceu. Com certeza brigou com o namorado... Deve tê-lo visto olhando para outra.

“O que aconteceu?”

“Você ainda pergunta?”

“Não devia perguntar?”

“Você não devia trepar com meu namorado!”

Puta que pariu! A coisa é pior do que eu pensava. É verdade o que dizem sobre as coisas sempre poderem piorar. Não sei o que dizer, então, olho para o chão e dou outra golada na batida desejando, mais uma vez, que não fosse tão doce.

“Eu não sabia”

“Você devia me trazer na festa. Não entrar e dar pra qualquer um. Especialmente quando esse qualquer um é meu namorado! Olhe ao seu redor, você vê alguém da sua idade? Vê o quanto está sendo ridícula?”

Sentir-se patética, saber que é patética, é uma coisa. Agora, ouvir isso da boca de sua sobrinha de dezesseis anos é muito pior.

“Desculpe”

“Não

Ela se levanta e começa a andar.

“Onde você vai?”

“Embora”

“Entra no carro. Eu te levo”.

“Não quero mais nada de você. Vou a pé”

“Ah! Você vai andar a Zona Sul inteira?”

“Eu vou de ônibus”

“Larga de ser teimosa e entra no carro!”

Como eu vim parar nessa situação ridícula? Como uma mulher como eu se submete a uma coisa dessas?

* * * * *

Os dias terminam como começam. È o que sempre diz minha mãe. Um dia que começa errado não pode terminar certo. Não adianta tentar conserta-lo. Um dia, para ser bom, deve começar bom. Simples assim. E hoje começou comigo e com Jonhattan na cafeteria. Ele estava quieto. Fumando. Totalmente quieto. Absolutamente quieto. Achei estranho. Jonhattan falava bastante. Quase sempre sobre si mesmo. É um daqueles tipos egóicos que gosta de falar sobre o que acha, o que faz, o que compra – é até um pouco superficial. Na verdade, bastante superficial. Mas, é melhor do que aqueles tipos calados, de olhar perdido, que se pensam como profundos.

Ele alternava entre tragadas e goles no café expresso longo. Acompanhava a fumaça com o olhar. Eu sabia que havia algo errado. Havia algo que ele queria me dizer. Por isso, havia me convidado para tomar café. Goles e tragadas eram apenas meios para protelar.

“Algum problema”, arrisquei perguntar. Se tinha que acontecer, que acontecesse logo.

“Na verdade, tem”.

“Qual é?”

“Eu simplesmente não te quero mais”.

Filho da puta! Ele acha que é assim. Me paga um capuccino, cita REM e está tudo acabado.

“Assim? Só isso?”

“É”

Filho da puta!

E foi assim. Realmente foi assim.

Nós terminamos o café, pagamos a conta – na verdade, ele pagou – levantamos e seguimos caminhos separados. Andei até a minha casa, ele até a dele. Passei em uma padaria para comprar cigarros. O dia transcorreu enquanto eu fumava deitada. Observando a fumaça subir, se espalhar e sumir. A história da minha vida amorosa

Num determinado momento, já há muito havia perdido a noção do tempo, o telefone toca:

“Tia, preciso de uma carona. Preciso que alguém me leve a uma festa”

* * * * *

Ela entra no carro emburrada e bate a porta com força, fazendo pirraça, fazendo birra. Não tem mais idade para isso, mas no momento, quem sou eu para criticar.

“Você não deveria foder com o meu namorado”

Mas fodi.

“Você não deveria entrar na festa”

Mas entrei.

“Você não deveria se comportar como uma adolescente”

Mas, às vezes, me comporto. Sim, eu, às vezes, mulher mais do que feita, me comporto como uma estúpida adolescente.

“Você não devia beber tanto”.

Mas, eu bebo. Faz parte do comportar-se como adolescente.

Minha sobrinha é como toda a adolescente. Um momento de esperteza e, quem sabe até iluminação, ilhado por um mar de escrotice. Uma verdadeira pentelha.

“Tem essa tal de lei seca”

Puta que pariu!

O policial acena para que eu pare. Enquanto paro o carro, imagino o que vou dizer ao poço de estabilidade, segurança e responsabilidade familiar que é minha irmã. Nenhuma idéia boa o bastante me ocorre. Talvez, porque não existam idéias boas a serem tidas nesses momentos.

“Documento, por favor”

“Ela está bêbada”

Biscatinha, quer mesmo andar a zona sul inteira.

“Documento, por favor” – o guarda ignora como uma brincadeira adolescente

“Não, é sério, ela está bêbada”

Dessa vez, a biscatinha é mais convincente.

“É.....”

Ela quer mesmo ir andando. Subestimei o comprometimento com o meio ambiente da nova geração.

“A senhora sabe que eu devia prender você e o veículo...”

Espero que a pentelha interrompa o policial com um “Você não pode deixá-la ir”. Mas, não.

“... mas, há um hotel há duas esquinas daqui. Se as senhoras ficarem por lá, pela noite, não oferecendo risco a vida de mais ninguém e nem a de vocês, por mim, está tudo certo”.

Me pergunto se ele me achou bonita ou se ganha um por fora do hotel. Se me achou bonita, já gastei minha dose vadia por hoje.

“Ta bom”, sem opções, concordo.

“Eu acompanho as senhoritas”

O guarda entra em seu carro e nos guia lentamente até o hotel. Nos deixa lá, cumprimenta e volta para o seu posto. Realmente, não queria nada de mim. Deve ter um acordo com o dono do hotel. Descemos no hotel e a pentelha volta logo a disparar:

“Achei que você ia dar pra ele pra conseguir se livrar dessa”.

Palavras de minha irmã vêem a minha mente: você só é contra os tapinhas na criação de crianças por que não as tem. Ela está certa. Se Luana fosse minha filha agora, acertaria ela com um belo tapa na boca. Com as costas da mão. Na esperança de que o solitário que porto cortasse seus lábios.

Entramos no hotel em passos rápidos para escapar da fria garoa da madrugada paulistana. Minha adolescente na frente, eu atrás.

Vou direto ao balcão enquanto a jovem fica examinando o saguão de entrada. Pequeno. Um balcão. À esquerda, seis poltronas viradas uma em direção as outras, um monumento à época em que as pessoas ainda conversavam em saguões de hotel, um monumento à época em que as pessoas ainda conversavam. E próximo a escada, em um suporte daqueles baratos, a máquina que tornou todas as conversas de saguão de hotel obsoletas: a TV.

“Um quarto para duas, por favor”.

“Ah nos temos o 207”. , ele coloca a chave sobre o balcão enquanto pede meus dados pessoais.

Começo a preencher a ficha e ,só então, ela percebe a verdade terrível.

“Eu não quero ficar no mesmo quarto que você”.

“Eu não vou pagar quartos diferentes”

“Então vou ligar para minha mãe vir me buscar”. Tira o celular da bolsa.

Arranco-o de suas mãos num segundo e atiro-o contra parede. Os componentes sofisticados e minúsculos separam-se e quebram-se facilmente. Giro-me em sua direção, com o dedo em riste. Grito:

“Chega! Chega de querer foder comigo! Chega de bancar a pentelha! Eu não estuprei ninguém! Ele quis me comer! Ele quis me comer!”

Seus olhos marejam. Ela pega a chave de sobre o balcão e sobe correndo as escadas.

Não vou atrás.

Do saguão, escuto a porta do quarto bater.

Olho para o rosto perplexo do atendente do hotel.

“Adolescentes”.

Ele ri um sorriso amarelo. Pensando, provavelmente, nas peças de celular que terá de limpar do chão.

Vou até as cadeiras onde outrora grandes diálogos devem ter sido travados, grandes amores devem ter nascido, grandes causos devem ter sido contados. Sento ali e penso. Afundo meu corpo na poltrona e projeto minha mente sobre o que fazer.

Eu não vou dormir em uma poltrona nem tão confortável. Depois de toda essa confusão com a polícia, nem estou mais tão bêbada assim. Não vou pagar outro quarto, meu cartão de crédito está estourado. Não vou tentar favores sexuais, minha cota de vadia também está estourada. Só me resta uma alternativa. Eu paguei por um quarto duplo e vou usar a minha parte. Ele vai ser um quarto duplo.

Levanto-me decidida. Ponho-me a subir a escada até encontrar o 207. Bato na porta.

“Vá embora, Tia”

“Eu paguei por isso, tenho direito de usar”.

“Fica pelo meu celular que você quebrou”.

“Vou te dar outro telefone, mas agora preciso que você abra a porta, preciso dormir”

“Não. Durma aí fora”.

“Você não está sendo madura o bastante para sua idade”.

“Olha quem fala? Olha quem fala? A mulher que vai em festa e transa com adolescentes”.

“É isso mesmo! E se você não quiser terminar como eu, é melhor começar a crescer agora! É melhor começar a tomar suas atitudes adultas já! Que tal começar por abrir a porra dessa porta!”.

Silêncio.

Um incômodo silêncio recai sobre os dois lados da porta. Coloco minhas costas sobre a porta e vou descendo lentamente, até sentar-me no chão. Já sem esperanças. Imaginando como seria o sono na poltrona do saguão, quanto teria que pagar por ele ou com o que teria que pagar por ele.

Súbito a porta se abre.

“Entra”

Entro olhando para o quarto nem tão bem arrumado e para as paredes nem tão bem pintadas. Pensando se não fui muito dura com ela ou comigo.

“A cama maior é minha”

Tudo bem. Eu concordo.

Deito em minha cama e ela não é tão confortável assim. Penso que a outra também não deve ser.

Um estranho silêncio toma conta do ambiente. Luana apaga as luzes. O silêncio que antecede o sono toma conta do ambiente, nos duas deitadas, uma em cada cama, o silêncio, porém, é quebrado por Luana:

“Como ele é”?

“Quem?”

“Meu namorado”

“Você o conhece melhor que eu”

“Na cama. Na cama só você o conhece”

“Ele era virgem?”

“Sim”.

“Parecia mesmo”.

“Então, como ele é?”

“Virgem. Perdido. Não é dos melhores, mas é prestativo, ao menos”.

As duas riem.

“E o....”

"E o, o que?”

“O pinto dele”.

“O que quer saber sobre o pinto dele?”

“É grande ou pequeno?”

“É pequeno. Mas, vai dizer que você não sabia?”.

“Eu sabia. Eu sentia quando dávamos uns catos mais nervosos. Parecia um pequeno botão de rosa me cutucando”.

As duas gargalham.

“Você não perdeu muita coisa. O cara come qualquer vadia, goza rápido e tem o pau pequeno”.

As gargalhadas aumentam.

“No final, eu vou ter que acabar te agradecendo”.

Mais gargalhadas.

Respiro fundo. Olho para o teto nem tão bem pintado. Respiro fundo. Procuro por ar. Deixo o silêncio reinar por alguns minutos.

“Sabe, você está certa sobre uma coisa. Eu vou procurar um terapeuta. Não posso continuar assim... devo sofrer de alguma forma de complexo de Peter Pan... ou melhor, de Wendy....”.

Rio.

“O que você acha?”

Sem resposta.

Minha adolescente adormeceu. Levanto. Observo. Ela dorme com uma expressão feliz no rosto. Cubro-a com o lençol nem tão macio. Volto a minha cama. Talvez, minha mãe estivesse errada, um dia poderia terminar diferente do que começara. Um dia que começara ruim podia terminar bem.

Olho no relógio: 00: 47.

Viro de bruços na cama nem tão confortável, não mais desejando que minha mãe esteja errada.

Pelo menos não por hoje.