
por B. F. Teixeira
Imagine que a viagem tenha sido cansativa, longa e monótona. Imagine que cada dia de trabalho é árduo, vermelho e tenha uma duração estranha. É claro, estranha para você porque eu já estou adaptado ao fuso horário local. Imagine que eu já esteja cansado de ver as mesmas caras e falar com as mesmas pessoas, mas eu não tenho muitas opções porque o contato via rádio com a terra é demorado, caro e reservado a comunicados de emergência e relatórios da missão, exceção seja feita aniversários, Natal e Ação de Graças (a missão é americana, os feriados são deles), qualquer comunicação diferente dessas resultaria em falta administrativa grave.
Imagine que eu seja um fanático por futebol. Imagine que eu nunca tenha escondido isso de ninguém, nem mesmo de meus companheiros de Agência. Se sua imaginação for algo fértil, você deve ter imaginado que eu encontrei algumas dificuldades no começo para discutir sobre esportes. Afinal, não sei nada de basquete, beisebol e vivo confundindo as palavras “soccer” e “football”, o que já me custou diversas frustrações, confusões, conversas e até amizades. A vida na terra do futebol da bola oval é difícil para os amantes do “jogo bonito”, mas há que se sobreviver pelo bem maior. Ah!, e você já deve ter imaginado também, que a NASA é composta por um bando de nerds de exatas e que lá dentro nem existem tantos espectadores de ESPN assim, principalmente quando se comparado com a audiência de The Big Bang Theory. Pois é, isso é verdade, e tornou ainda mais dolorosa e árdua minha convivência.
Deixe, contudo, sua imaginação navegar um pouco mais, e visualize só por um momento um nerd colecionador de cards de beisebol, engenheiro aeroespacial brilhante, fanático por modelos matemáticos aplicados a coisas estranhas (como lutas de sumô e audiência de talk shows), filho de mãe eslovena e sensível. Em um resumo da ópera, um xuxu de garoto. Esse é o meu melhor amigo Darin. Darin, que embora não fale português, para que eu pudesse fazer trocadilhos infames com seu nome, é uma boa pessoa, pois, permite que eu passe os feriados com sua família apesar dos olhares que lanço a sua irmã, dona de uma exótica beleza do leste europeu. Só para finalizar de visualizar Darin, imagine que ele também tem o hábito de trabalhar até mais tarde em seus projetos, ainda que quase nunca lhe seja paga hora extra. Pronto. Esse é Darin.
Agora, imagine que Darin está trabalhando até mais tarde na Agência em Houston, Texas. Imagine que quase todo mundo já foi embora, com exceção dos vigilantes e o tarado do laboratório R que fica usando a banda larga para baixar pornografia. Imagine que o dia em questão é o dia 12 de julho de 2010. Darin já não me vê há quase três anos. Mas, não é nisso que ele pensa. Pensa apenas em ver seus e-mails rapidamente e, finalmente, ir para a casa começar a desenvolver um novo modelo matemático para se aumentar as chances de completar coleções de cards de beisebol. Quando abre a internet, Darin dá de cara, não dá de cara, mas lê, uma pequena nota sobre o final (e a final) da Copa do Mundo. Então, a mente de Darin parte em linha mais reta do que a de um foguete projetado por ele. Copa do Mundo FIFA. Futebol (soccer). Bruno. Marte. 3 anos. Bruno não sabe o que aconteceu na Copa do Mundo. É a essa verdade, tão árida quanto o planeta vermelho em que me localizo, que sua mente chega. Por um momento, Darin (eu disse que ele é sensível) se põe no meu lugar e imagina o horror de não saber o que aconteceu na competição mais importante do seu esporte predileto. Depois imagina o terror de ver essa competição só de quatro em quatro anos, depois imagina o terror de que esse esporte tenha tão poucos pontos marcados por partida...
Darin controla sua imaginação fértil e decide fazer algo por seu amigo que não vê há tanto tempo. É claro, seu amigo faz aniversário em setembro, e comunicações de motivos diversos poderiam ser feitas nesse dia sem colocar seu emprego em risco. Mas, não! Darin decide criar coragem, colocar seu pescoço na reta e infringir as regras (Como consolo, Darin pensa que jamais demitiriam um engenheiro aeroespacial tão brilhante).
Fazendo uso do jeitinho brasileiro, aprendido com a convivência comigo, Darin entra no sistema de comunicações e envia a seguinte mensagem ao centro de comunicações do laboratório-base de Marte:
Espanha campeã Copa 2010.
Resultados:
Suíça: 0x1; Honduras: 2x0; Chile: 2x1; Portugal: 1x0; Paraguai: 1x0; Alemanha: 1x0; Holanda: 1x0 (pro).
David Villa: 5 gols
PS: Jogaram com uma bola nova. Você precisa ver o modelo matemático para as curvas dela! Uma loucura! Te mando no seu aniversário!!
Imagine agora minha reação ao receber a comunicação enviada por Darin. Primeiro, é claro, foi de surpresa pelo ato em si. Depois, é claro, de surpresa pelos números. Que me levaram a seguinte conclusão:
O efeito da derrota para a França na última copa do mundo (a última que eu assisti) foi forte demais para a Espanha. Aparentemente, a torcida e os dirigentes não aceitaram o fato de Zidane estar em um dia inspirado. Acharam que tudo estava errado com a Fúria. Afinal, jogavam como nunca e perdiam como sempre. Sempre. Era hora de mudar isso. De mudar tudo. Renovar. Acharam que era hora de a Fúria realmente se tornar furiosa. O título da Itália, então, única equipe capaz de frear Monsieur Zidane provava: ali estava a receita do sucesso. O talento não podia contra o comprometimento, contra a competitividade, contra a garra. Era hora de jogar como os italianos. Contrataram um técnico da velha bota (Fábio Cappello?) e imploraram para que os ensinasse o “catenaccio”. E assim o fez Cappello.
Jogando com cinco zagueiros, uma linha de quatro e um líbero, e dois volantes pesados, o time da Espanha truncou o jogo de seus adversários, dificultando qualquer exercício de criatividade por parte de seus adversários. Com o contra-ataque puxado por seu homem de velocidade no meio visando sempre David Villa, o time foi vencendo aos trancos e barrancos sempre com um gol de diferença. Exceção seja feita a frágil equipe hondurenha.
Mais um time que jogou feio e ganhou. Melhor ter ficado em Marte que ver isso acontecer com o futebol. Imagine que é com esse pensamento que eu apago a transmissão de Darin do sistema e que é com ele que eu retorno com prazer a meus pequenos passos.
Imagine, por fim, que o blogueiro qualquer tenha escrito tudo isso para provar o quão estranha foi mesmo essa Copa do Mundo. Mas, que estranho não quer necessariamente dizer ruim. Afinal, tudo poderia ter sido muito pior! Basta imaginar um pouco.







