sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Salve o Peru do Natal



por Denis Barbosa Cacique

Alguma vez lhe ocorreu a idéia de que pode haver algo de errado na pretensa legitimidade do uso que nós, animais humanos, fazemos dos animais não-humanos quando nos servimos deles para a alimentação? Essa sensação pode ser provocada por notícias semelhantes à seguinte: ‘recentemente, a polícia desmontou um abatedouro de cães, em Suzano, cidade da região metropolitana de São Paulo. O estabelecimento clandestino funcionava nos fundos de uma casa, para onde eram levados cachorros de rua. Lá, uma vez engordados, eram mortos. A carne era vendida principalmente para açougues coreanos. Já os pedaços sem proveito, incineravam. E assim, à surdina, o abatedouro funcionou durante três anos’. Imagine quanto maniqueísmo foi necessário para que se pusesse em marcha tão repugnante indústria. Mas, além disso, não se furte de imaginar uma solução para o seguinte problema: será que os clientes do abatedouro de cães são moralmente piores do que nós, que já temos planejado o peru de Natal?

Em parte, essa é uma questão cultural. E quem de nós escolheu onde ou quando nasceria? Aleatoriamente surgidos num ponto do tempo e do espaço - assim eu suponho – nascemos, e pronto. Encontramo-nos, então, numa sociedade cujos elementos culturais já estavam sedimentados o bastante para que fiássemos neles sem sequer hesitar. Quase nunca questionamos nossas próprias tradições, mas sempre julgamos os elementos culturais estrangeiros. É complicado explicar os porquês desse comportamento. Na verdade, o ser humano tem a razão, essa perigosa fera no interior de cada um de nós, domesticada pelo hábito. Ele nos afrouxa o espírito crítico a tal ponto de considerarmos qualquer coisa aceitável: a razão afrouxada é capaz de tudo. Mas como se dá esse afrouxamento? Perceba: muitas de nossas verdades jamais passaram pelo crivo da razão. É normal e, em certos casos, positivo que hajamos assim. Damos crédito às coisas que nossos pais nos ensinaram. Eles assim também o fizeram. Do mesmo modo será com nossos filhos. E assim as tradições se perpetuam, de geração a geração, indefinidamente. Trata-se de um importante modo de compartilhamento de informações, o qual utilizamos o tempo todo, até sem perceber. Quando um médico nos prescreve uma medicação, por exemplo, não lhe exigimos uma demonstração minuciosa dos riscos e benefícios dos comprimidos. Nós simplesmente acreditamos no que ele nos diz. Em parte, é assim que se dá a perpetuação dos valores culturais, todavia numa escala muito maior e mais complexa.

Feita essa sinuosa, porém necessária, digressão, deve ficar mais claro o estranhamento que se sente diante dum cardápio estrangeiro. Por razões diversas, e que não vem ao caso elencar, cada sociedade engendra ao longo do tempo valores acerca de tudo, inclusive sobre os hábitos alimentares. Surgem, então, certas éticas alimentares, isto é, conjuntos de regras quanto ao certo e ao errado em torno do ato de comer. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, por exemplo, se comem perus, sobretudo no Natal. Já em algumas sociedades asiáticas, a carne de cachorro é um prato bastante comum. Nos dois casos, o hábito alimentar e seu respectivo valor moral local são culturalmente determinados. E justamente por se tratar de um hábito, pouco se questiona a seu respeito, a não ser que ele seja alheio.

Mas o que, afinal, é pior, alimentar-se de cães ou de perus? Por hipótese, assumamos que ambas as práticas são moralmente condenáveis. Há muitas pessoas convictas sobre isso e nós devemos ao menos refletir a respeito. Segundo elas, assumindo que o consumo de carne é dispensável aos seres humanos, o que, na verdade, é tema bastante controverso, então é moralmente necessário adotarmos dietas vegetarianas. Ao fazê-lo, evitaríamos os incontáveis sofrimentos infligidos a animais das mais diversas espécies, de cães a perus, tudo em nome do nosso simples paladar. Mas se essa mera idéia lhe soa demasiadamente estranha e, quiçá, risível, vale lembrar que o racismo, o sexismo e a homofobia, por exemplo, produziram, até pouquíssimo tempo atrás, teorias e práticas amplamente legitimados por cientistas, filósofos e religiosos, que, na verdade, apenas reproduziam valores culturais vigentes em suas épocas. E já que outrora fomos capazes de tão graves equívocos, o que nos garante que estamos certos quanto ao especicismo? Por via das dúvidas, portanto, talvez não seja uma má idéia salvar o peru do Natal. Pense nisso.

Um comentário:

Brunão disse...

Nem parece o kra q comeu uma churrascada comigo na casa do Cesar..rss....
Por isso, eu não vou comer peru de natal, vou comer Chester q é uma coisa q eu não sei o que é portanto não tem pq rolar culpa... hahaa.
Excelente texto. Argumentaçao é tão boa que faz até um carnívoro convicto como eu sentir culpa...